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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Política

Eleitores com deficiência batem recorde e ampliam desafio

As eleições de 2026 registraram o maior número de eleitores com deficiência da história: 1.970.165 pessoas aptas a votar, um aumento de 42% em relação a 2022. O crescimento amplia o desafio de garantir acessibilidade nas urnas, que já contam com novos recursos e transporte gratuito, mas ainda enfrentam barreiras físicas, comunicacionais e atitudinais.

4 min de leitura
Eleitores com deficiência batem recorde e ampliam desafio
Crédito: www12.senado.leg.br

As eleições de 2026 tiveram o maior número já registrado de eleitores com deficiência. Foram 1.970.165 pessoas aptas a votar, 42% a mais que em 2022. Como proporção do eleitorado total, o eleitorado com deficiência subiu de 0,1% para 1,24% desde 2010, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começou a reunir esse dado — um aumento em mais de dez vezes da representação dessa população nas urnas.

O crescimento expressivo impõe à Justiça Eleitoral a necessidade de ampliar e aprimorar as condições de acessibilidade nos locais de votação. O primeiro turno, realizado em todo o país, serviu como teste para novas medidas e também expôs desafios que ainda precisam ser superados.

Urnas ganham novos recursos de acessibilidade

O acolhimento também avançou com novos recursos nas urnas eletrônicas e a criação de um programa de transporte gratuito para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. No primeiro turno, essas medidas foram colocadas em prática em todo o país e também passaram a ser avaliadas a partir da experiência dos próprios eleitores.

Entre as novidades estão melhorias tipográficas, telas redesenhadas e barra de progresso permanente, que ajudam a acompanhar a votação. Além disso, a urna passou a oferecer áudio com a voz “Letícia”, com orientações sonoras sobre cargos em disputa, números digitados e a candidatura escolhida antes da confirmação do voto.

Para eleitores surdos, há tradução em Libras, com intérprete em vídeo sinalizando os cargos em disputa e as opções de voto em branco, nulo e de legenda. Já os recursos táteis incluem teclado em Braille, alto-relevo nos números e marca de orientação na tecla 5, que auxiliam a navegação na urna.

O uso de cão-guia é permitido e o eleitor pode contar com uma pessoa de confiança, mediante autorização do mesário. Essas ferramentas representam um avanço, mas a experiência do primeiro turno mostrou que ainda há obstáculos a vencer.

Transporte gratuito atende mais de 2 mil eleitores

O primeiro turno também serviu para colocar à prova o programa Seu Voto Importa, que ofereceu transporte gratuito a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida que não tinham meios próprios para chegar aos locais de votação. No balanço divulgado pelo TSE no dia da votação, mais de 2 mil eleitores com mobilidade reduzida haviam sido transportados pelos veículos do programa.

A iniciativa buscou reduzir uma das principais barreiras para a participação eleitoral: o deslocamento. A experiência de Alessandra Pereira dos Santos mostra como o deslocamento pode interferir na participação eleitoral. Estudante de Jornalismo e cadeirante, ela vota no Paranoá, cidade-satélite na periferia de Brasília (DF). Segundo ela, a distância e as dificuldades de transporte, que já são batalhas do dia-a-dia, podem se tornar obstáculos ainda maiores em um dia de eleição.

Na penúltima eleição eu votei pela primeira vez, e uma pessoa teve que votar por mim. Minha mãe é a pessoa que me auxilia. Nós vamos até a cabine de votação, eu fico do lado dela e ela vai apertando os botões. Essa é uma situação que eu vejo que a Justiça Eleitoral tem tentado trabalhar.

O relato evidencia a importância de políticas que garantam autonomia e dignidade no exercício do voto. Ainda assim, especialistas apontam que o transporte é apenas uma das dimensões da acessibilidade eleitoral.

Barreiras de comunicação e atitudinais persistem

Além das barreiras físicas, o jurista Joelson Dias chama atenção para dificuldades de comunicação e acesso à informação, inclusive nos meios digitais. Segundo ele, os conteúdos divulgados por instituições e partidos políticos precisam considerar recursos de acessibilidade para que eleitores e candidatos com deficiência tenham acesso às informações do processo eleitoral.

Outra adversidade está relacionada às chamadas “barreiras atitudinais”: o preconceito, a falta de paciência e a falta de conhecimento que podem prejudicar o atendimento ao eleitor por parte dos funcionários da Justiça Eleitoral.

— Após o primeiro turno, o que mais eu ouvi de reclamação de algumas pessoas com deficiência foi [sobre] a capacitação e o treinamento dos mesários. Será necessário ver de que maneira isso pode melhorar.

A fala, atribuída a Joelson Dias, indica que o preparo das equipes que atuam nas seções eleitorais é um ponto crítico. A falta de treinamento adequado pode comprometer a experiência de votação, mesmo com os avanços tecnológicos.

Participação dos eleitores é fundamental

Para Dias, as experiências dos próprios eleitores devem ser consideradas na avaliação das medidas de acessibilidade. O eleitor que encontrar uma dificuldade durante a votação pode pedir que a ocorrência seja registrada pelo mesário e também comunicar o problema ao cartório eleitoral. Organizações de pessoas com deficiência podem ainda reunir relatos e encaminhar reivindicações à Justiça Eleitoral.

As ocorrências registradas no primeiro turno podem contribuir para ajustes ainda nas eleições de 2026 e também para o planejamento dos próximos pleitos. Segundo o especialista, a participação das pessoas com deficiência na avaliação das políticas de acessibilidade é fundamental para identificar problemas e propor melhorias.

O recorde de eleitores com deficiência em 2026 é um marco que exige respostas concretas. As medidas adotadas representam um avanço, mas os desafios apontados por eleitores e especialistas mostram que o caminho para a plena acessibilidade eleitoral ainda demanda esforços contínuos.

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