BBI revisa preços-alvo de utilities após eleições
O BBI elevou sua projeção de juros reais e revisou preços-alvo de utilities após as eleições. Copel teve alvo mantido, Sabesp e Equatorial sofreram cortes. Eneva e Axia são apontadas como favorecidas no novo cenário.
O BBI (Banco Bradesco BBI) divulgou nesta semana uma revisão de suas projeções para o setor de utilities, elevando a estimativa de juros reais de longo prazo e ajustando os preços-alvo de empresas como Copel, Sabesp e Equatorial. A mudança ocorre após as eleições e reflete um ambiente macroeconômico mais desafiador, com impacto direto sobre o custo de capital das companhias. O banco também destacou que empresas com menor duração de fluxo de caixa, como Eneva e Axia, tendem a se beneficiar nesse cenário.
Os ajustes foram comunicados em relatório a clientes, no qual o BBI detalhou as novas premissas e os efeitos sobre as avaliações. A revisão não se limita aos preços-alvo, mas inclui também mudanças no WACC regulatório e nas projeções de preço de energia. A seguir, os principais pontos do documento.
Copel mantém preço-alvo e potencial de alta
A Copel teve seu preço-alvo mantido em R$ 19, com potencial de alta de 9,6% em relação ao preço atual. A decisão do BBI indica que, apesar do aumento dos juros reais, a companhia paranaense continua bem posicionada, possivelmente devido à sua estrutura de negócios e à previsibilidade de seus fluxos de caixa. A manutenção do alvo sugere que o banco não vê necessidade de ajustes significativos na tese de investimento da Copel.
Esse posicionamento contrasta com outras empresas do setor, que sofreram cortes em seus preços-alvo. A estabilidade da Copel pode estar relacionada a fatores como a qualidade de seus ativos e a gestão eficiente, embora o relatório não detalhe os motivos específicos. O potencial de alta de 9,6% ainda é atrativo para investidores que buscam exposição ao setor elétrico com menor risco relativo.
Sabesp e Equatorial têm alvos reduzidos
Para a Sabesp, a estimativa caiu de R$ 40 para R$ 35, com potencial de valorização de 9,4%. A redução reflete o impacto do custo de capital mais elevado sobre o valor presente dos fluxos de caixa futuros da companhia de saneamento. Apesar do corte, o potencial de alta permanece próximo ao da Copel, indicando que o BBI ainda vê valor na ação.
O preço-alvo da Equatorial (EQTL3) foi reduzido de R$ 57 para R$ 51, com potencial de alta de 4,3%. A diminuição é mais acentuada em termos percentuais, sugerindo que a empresa é mais sensível às mudanças nas taxas de juros. A Equatorial, que atua em distribuição e transmissão de energia, pode ter seus fluxos de caixa mais afetados pelo aumento do custo de capital, justificando o ajuste mais significativo.
Juros reais elevados favorecem Eneva e Axia
A Eneva e a Axia apresentam duração dos fluxos de caixa de 6,8 anos e 5,6 anos, respectivamente, característica que, na avaliação do BBI, favorece essas empresas em um ambiente de juros reais mais elevados. A duração é uma medida da sensibilidade do valor de um ativo às mudanças nas taxas de juros: quanto menor a duração, menor o impacto negativo do aumento dos juros.
Empresas com fluxos de caixa de curta duração tendem a sofrer menos com o desconto a taxas mais altas, pois seus retornos são realizados mais rapidamente. Nesse contexto, Eneva e Axia se destacam como opções defensivas dentro do setor de utilities. O BBI não forneceu preços-alvo específicos para essas companhias no relatório, mas a menção indica uma visão positiva relativa.
Sabesp: regulação reduz risco macroeconômico
Na Sabesp, o crescimento do fluxo de caixa é apoiado pela estrutura regulatória do Estado de São Paulo, que incorpora anualmente os investimentos realizados às tarifas. Esse mecanismo reduz a dependência da companhia em relação a fatores macroeconômicos, como inflação e juros, pois os custos são repassados aos consumidores de forma previsível.
Essa característica é um diferencial importante para a Sabesp, pois proporciona maior estabilidade de receitas mesmo em cenários adversos. A regulação paulista permite que a empresa invista continuamente em expansão e melhoria dos serviços, com a garantia de recuperação desses investimentos ao longo do tempo. Assim, apesar do corte no preço-alvo, o BBI reconhece a resiliência do modelo de negócios da Sabesp.
WACC regulatório sobe para 8,3%
Além disso, o BBI fez pequenos ajustes nas premissas de Pd e fator X e elevou de 7,8% para aproximadamente 8,3% a estimativa para o custo médio ponderado de capital (WACC) regulatório de longo prazo, em linha com a nova premissa de juros reais. O WACC é a taxa de desconto utilizada para calcular o valor presente dos fluxos de caixa futuros das empresas reguladas.
O aumento de 0,5 ponto percentual no WACC reflete diretamente a elevação dos juros reais, tornando os projetos de infraestrutura menos atrativos em termos de valor presente. Isso explica, em parte, os cortes nos preços-alvo de Sabesp e Equatorial. Para as empresas, um WACC mais alto significa que precisam gerar retornos maiores para justificar seus investimentos, o que pode pressionar as tarifas no futuro.
Preço de energia de longo prazo mantido
Apesar dos ajustes para o curto prazo, o BBI manteve em R$ 225/MWh a estimativa para o preço de energia no longo prazo. Os valores considerados nas projeções são líquidos de impostos sobre vendas. A manutenção dessa premissa indica que o banco não espera mudanças estruturais no mercado de energia que alterem o patamar de preços no horizonte de longo prazo.
Essa estabilidade é relevante para as geradoras e comercializadoras, pois o preço de energia é um dos principais determinantes de suas receitas. Ao manter a estimativa, o BBI sinaliza confiança na dinâmica de oferta e demanda do setor elétrico brasileiro, apesar das incertezas macroeconômicas. A combinação de juros mais altos e preço de energia estável cria um cenário misto para as utilities, com impactos diferenciados conforme o perfil de cada empresa.
Em resumo, a revisão do BBI reflete um ambiente de juros reais mais elevados, que penaliza empresas com fluxos de caixa de longa duração, mas favorece aquelas com retornos mais rápidos. Os ajustes nos preços-alvo de Sabesp e Equatorial, a manutenção para Copel e a visão positiva para Eneva e Axia ilustram essa dinâmica. O setor de utilities continua oferecendo oportunidades, mas a seleção de ativos torna-se ainda mais crucial diante do novo cenário macroeconômico.