Protestos contra despejo em Madri entram no 3º dia
Protestos em Madri entram no terceiro dia após despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos. Manifestantes acampam na Puerta del Sol e pedem proteção a inquilinos diante da alta dos aluguéis.
Manifestantes iniciaram nesta segunda-feira (28) o terceiro dia acampados em frente à sede do governo regional de Madri para se opor ao despejo de uma idosa e exigir maior proteção aos inquilinos diante da escassez de moradias e do aumento vertiginoso dos aluguéis. A mobilização ganhou força após o caso de Maricarmen Abascal, de 87 anos, retirada de sua casa em uma maca na semana passada.
Os protestos se intensificaram na semana passada depois que a polícia despejou Maricarmen Abascal, de 87 anos, em uma maca, de sua casa em Madri, onde morava há mais de sete décadas, devido a uma ordem de despejo obtida pelo fundo de investimento que comprou seu apartamento. Centenas de pessoas do lado de fora do prédio entraram em confronto com a polícia, enquanto o governo central de esquerda condenou o governo regional de centro-direita, que não conseguiu impedir o despejo.
A indignação com o caso se espalhou rapidamente pelas redes sociais e mobilizou coletivos de moradia. O despejo de uma pessoa idosa, que vivia no mesmo imóvel desde a infância, tornou-se símbolo da crise habitacional que afeta especialmente os mais vulneráveis. A atuação policial durante a retirada também foi alvo de críticas por parte de organizações de direitos humanos.
Acampamento na Puerta del Sol cresce
Centenas de barracas ocupavam hoje a praça central Puerta del Sol, ecoando os protestos de 2011, quando o local ficou ocupado por um mês por ativistas que se manifestavam contra as medidas de austeridade adotadas durante a crise financeira global. A praça, tradicional ponto de encontro de manifestações em Madri, voltou a ser palco de uma ocupação prolongada.
Ao cair da noite na Puerta del Sol, onde fica o escritório de Isabel Díaz Ayuso, presidente de centro-direita da Comunidade de Madri, dezenas de ativistas montaram barracas, e seu número vem crescendo constantemente desde então. A presença das barracas em frente à sede do governo regional é um recado direto às autoridades locais, acusadas de omissão diante da crise de moradia.
O acampamento se organiza em comissões de limpeza, alimentação e segurança, segundo relatos de participantes. A estrutura lembra as acampadas do movimento 15-M, que há uma década ocupou a mesma praça. A diferença, agora, é o foco específico na questão habitacional e nos despejos promovidos por fundos de investimento.
Marcha reuniu 30 mil no sábado
No sábado (26), cerca de 30 mil pessoas marcharam por Madri para se opor ao tratamento dado a Maricarmen e a outras pessoas expulsas de suas casas por fundos de investimento. A manifestação percorreu as principais ruas do centro e terminou em frente ao prédio onde a idosa morou por mais de 70 anos.
Os manifestantes agitavam chaves e carregavam faixas com slogans como “Especuladores, voltem para casa” e “Moradia é para morar”. O gesto de agitar chaves tornou-se um símbolo dos movimentos de inquilinos na Espanha, representando a luta pelo direito de permanecer em suas casas.
A marcha contou com a presença de famílias, jovens e idosos, refletindo a amplitude do problema. Muitos participantes relataram dificuldades para pagar aluguel ou medo de receber ordens de despejo. A organização estimou que o número de presentes superou as expectativas iniciais, mostrando a força do movimento.
Jovens enfrentam dificuldade para sair de casa
Blanca, uma estudante, disse que os jovens espanhóis estão enfrentando dificuldades para sair da casa dos pais. A declaração reflete um cenário em que a emancipação residencial é cada vez mais tardia, devido aos altos preços dos aluguéis e à precariedade do mercado de trabalho.
“Os políticos não só não fazem nada como ainda pioram a situação”, declarou. “Decidimos nos posicionar com firmeza, então esperemos que eles nos ouçam.” A fala da estudante sintetiza o sentimento de frustração com a classe política, acusada de não enfrentar a especulação imobiliária.
A presença de jovens no acampamento e nas marchas é significativa. Muitos veem na luta por moradia uma pauta central para o futuro, já que a dificuldade de alugar ou comprar um imóvel adia planos de vida, como formar família ou mudar de cidade por trabalho.
Governo central anuncia decreto de moradia
O primeiro-ministro Pedro Sánchez afirmou, no domingo, que o governo trabalha para aprovar, até amanhã (29), no Parlamento um decreto sobre moradia que traria alívio imediato aos inquilinos. A declaração foi feita em meio à pressão das ruas e à repercussão do despejo de Maricarmen.
O decreto, segundo o governo, incluiria medidas para limitar aumentos abusivos de aluguel e ampliar a proteção contra despejos. No entanto, detalhes sobre o conteúdo e a viabilidade de aprovação no Parlamento ainda não foram divulgados. A fonte não detalhou quais seriam os mecanismos de alívio imediato.
A promessa de Sánchez ocorre em um momento de tensão política entre o governo central, de esquerda, e o governo regional de Madri, de centro-direita. O caso de Maricarmen expôs as divergências sobre a responsabilidade na proteção aos inquilinos e na regulação do mercado imobiliário.
Aluguéis dobraram na última década
Os aluguéis, em média, dobraram na última década, superando em muito o crescimento dos salários. Esse descompasso entre renda e custo de moradia é apontado como uma das causas centrais da crise habitacional que alimenta os protestos.
O aumento dos preços é atribuído, em parte, à entrada de fundos de investimento no mercado residencial, que compram imóveis para alugar ou revender com lucro. A prática, conhecida como financeirização da moradia, reduz a oferta de imóveis acessíveis e pressiona os valores para cima.
Em Madri, a situação é particularmente grave, com bairros inteiros passando por processos de gentrificação e expulsão de moradores antigos. O caso de Maricarmen, que vivia no mesmo apartamento há mais de 70 anos, ilustra como até inquilinos de longa data estão vulneráveis a ordens de despejo.
Protestos se espalham pela Espanha
Outros protestos estavam previstos para ocorrer em toda a Espanha nesta segunda-feira, de acordo com o Sindicato dos Inquilinos, que vem coordenando as manifestações. A entidade tem organizado atos em diversas cidades para pressionar por mudanças na legislação de moradia.
A coordenação nacional dos protestos indica que a insatisfação com a política habitacional não se restringe a Madri. Cidades como Barcelona, Valência e Sevilha também registram mobilizações contra despejos e altos aluguéis, embora a fonte não tenha detalhado o número de participantes previstos.
O Sindicato dos Inquilinos defende a proibição de despejos sem alternativa habitacional e o controle de preços de aluguel em áreas tensionadas. A pauta ganhou visibilidade com o caso de Maricarmen, mas reflete demandas antigas do movimento por moradia digna.
Enquanto o acampamento na Puerta del Sol segue crescendo, a expectativa é de que a pressão popular influencie a votação do decreto de moradia no Parlamento. A resposta do governo central e a postura do governo regional de Madri serão decisivas para os rumos da crise.
Fonte
- agenciabrasil.ebc.com.br
- Rádios (radios.ebc.com.br)
- TV Brasil Seu Voto, Sua Voz: desafios ao voto dos povos originários (tvbrasil.ebc.com.br)
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