Tarifaço dos EUA afeta soberania, dizem debatedores
Senadores e especialistas discutiram na CMA os efeitos das tarifas impostas pelos EUA e as perspectivas para o setor de terras-raras. O debate abordou soberania nacional, política comercial e industrialização de minerais críticos.
A Comissão de Meio Ambiente do Senado (CMA) promoveu, nesta quinta-feira (22), audiência pública para debater os impactos do chamado “tarifaço” norte-americano sobre a economia brasileira e as oportunidades e riscos associados às terras-raras. A reunião foi presidida pela senadora Leany Lemos (PSB-DF), autora dos requerimentos REQ 20/2026 – CMA e REQ 21/2026 – CMA.
Soberania nacional em jogo
A senadora Leany Lemos afirmou que os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, passaram a tratar sua política comercial como “arma para atingir os seus interesses”. Ela ressaltou que o governo norte-americano encara o Brasil como se fosse seu “quintal”.
— Estamos falando de soberania nacional e do direito e do dever de decidirmos livremente os nossos caminhos e o destino das nossas riquezas. Os Estados Unidos se posicionam, neste momento histórico, com uma estratégia de dominância talvez inédita — criticou a senadora.
Desde março de 2025, os Estados Unidos vêm anunciando sucessivas tarifas para produtos e serviços estrangeiros que entram naquele país. Atualmente, quase metade das exportações brasileiras para os EUA (47,3%) está sujeita a taxas extras de até 37,5% — que não existiam em 2024.
Objetivo do tarifaço
Pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Renato Baumann destacou que o objetivo do “tarifaço” é levar a negociações entre os países envolvidos que resultem em mais investimentos nos EUA. Baumann explicou que os Estados Unidos são grandes fornecedores de serviços, mas não de investimentos e infraestrutura.
Segundo ele, a percepção do governo liderado por Trump é que os países sobretaxados prejudicam a indústria norte-americana porque exportam mais para os EUA do que importam. Mas, observou ele, esse não é o caso do Brasil.
— O Brasil tem déficit comercial com os EUA desde 2008. É uma estratégia eleitoral, ideológica e comportamental [por parte dos EUA] que não se sustenta, em que tudo pode acontecer amanhã.
Terras-raras: riscos e oportunidades
Ao tratar das terras-raras, o professor da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Landgraf declarou que o Brasil pode construir uma fábrica brasileira de ímãs (para os quais as terras-raras podem ser matéria-prima), em vez de simplesmente vender o material bruto para outros países.
Para ele, são indispensáveis políticas nacionais para o setor e também investimentos estrangeiros — devido ao alto risco de prejuízo. Landgraf estima que sejam necessários cerca de 10 anos para se obter lucro nesse mercado, que ele ainda considera pequeno.
— São poucas as fábricas de ímãs. Não chegam a 10 fora da China. Mas quem compraria isso? Centenas de fábricas de diversos motores e componentes pelo mundo — frisou o professor, que também citou a Política Nacional de Minerais Críticos, cuja lei foi sancionada no mês passado.
Geopolitização dos minerais
A pesquisadora Luíza Cerioli enfatizou que a China “dominou grande parte do processamento desses minerais nas últimas décadas”. E que, por isso, outros países (como os EUA) e grandes empresas começaram a perceber a dependência desses insumos como uma vulnerabilidade estratégica.
Ela chamou isso de “geopolitização”: temas que antes eram tratados como exclusivamente comerciais ou técnicos passam a ser encarados como questões de poder, segurança e estratégia nacional.
Cerioli avalia que a industrialização das terras-raras exigiria parcerias internacionais sólidas. Mas, por outro lado, ela defendeu o foco no mercado interno, com a busca de salvaguardas ambientais e a redução da desigualdade econômica.
Tarifa de 25% baseada em falácia
Segundo André Rodolfo de Lima, representante do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a decisão do governo norte-americano de aplicar uma tarifa adicional de 25% a uma série de produtos brasileiros — a partir de julho deste ano — foi baseada em uma “grande falácia”.
De acordo com o governo dos Estados Unidos, o Estado brasileiro falhou na fiscalização do desmatamento, o que teria favorecido o agronegócio nacional e, consequentemente, prejudicado o setor nos EUA. Esse foi um dos argumentos apresentados pelos norte-americanos para justificar a taxação de 25%.
Lima informou que, entre 2022 e 2026, houve uma redução de 75,4% no desmatamento observado na Floresta Amazônica — e isso é resultado, observou ele, da adesão de 80 municípios a um programa da União (implementado no âmbito do Fundo Amazônia).
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