“Eu avisei”: Eduardo Borgo fala ao Diário Regional sobre o escândalo do lixo em Bauru
Vereador que denunciou Suéllen Rosim será entrevistado pelo Diário Regional e promete falar sobre os alertas feitos antes da Operação Cavalo de Troia, a concessão de R$ 5,2 bilhões, a prisão de Renato Purini e os bastidores da crise que atingiu o núcleo da Prefeitura
O caso que começou envolvendo uma gigantesca concessão para o serviço de resíduos sólidos de Bauru transformou-se em uma crise política e policial que colocou no centro das atenções a administração da prefeita Suéllen Rosim (PSD).
E nesta quinta-feira (22), o Diário Regional, do Birigui Notícias, recebe um dos personagens que mais têm pressionado o governo municipal a prestar esclarecimentos: o vereador Eduardo Borgo (Novo).
Autor da denúncia que deu origem à Comissão Processante contra a prefeita, Borgo afirma que já vinha alertando há bastante tempo sobre problemas na administração municipal e deverá falar, durante a entrevista, sobre aquilo que ele diz ter identificado antes mesmo da deflagração da Operação Cavalo de Troia.
A entrevista terá aproximadamente uma hora e será conduzida por Guilherme Renan, com transmissão pelo Birigui Notícias.
O contrato bilionário que colocou Bauru no centro das atenções
No centro da investigação está a concessão do sistema de gestão integrada dos resíduos sólidos de Bauru.
O projeto foi estimado em aproximadamente R$ 5,2 bilhões para um período de 30 anos.
Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, a investigação conduzida pelo Gaeco apura suspeitas de fraude na licitação, possível direcionamento desde a elaboração dos estudos técnicos, eventuais pagamentos de vantagens indevidas, compartilhamento reservado de documentos e tentativas de interferência na atuação de órgãos de controle.
A dimensão financeira do contrato ajuda a explicar por que o caso ganhou proporções tão grandes.
Mas a pergunta que permanece é outra:
como uma concessão bilionária chegou a esse ponto?
É justamente essa trajetória que Borgo será convidado a explicar.
Borgo diz que os alertas começaram antes da operação
Para o vereador, o caso não começou em setembro de 2026, quando o Gaeco deflagrou a Operação Cavalo de Troia.
Borgo sustenta que vinha fazendo questionamentos e alertas sobre a administração municipal anteriormente.
Na Comissão Processante, ele apresentou uma denúncia contra Suéllen Rosim e, posteriormente, protocolou uma manifestação com 25 pedidos de provas e providências, entre eles o compartilhamento de elementos produzidos na investigação criminal, documentos da concorrência pública, informações sobre a tramitação do processo e preservação de dados eletrônicos relacionados à licitação.
A denúncia foi recebida pela Câmara por 19 votos a 1 e deu origem à Comissão Processante.
Em 5 de outubro, os três integrantes da comissão votaram pelo prosseguimento da denúncia, permitindo que a investigação político-administrativa avançasse para a fase de instrução.
Agora, Borgo terá a oportunidade de explicar ao público regional:
O que ele viu antes de todo mundo?
Suéllen nega ter sido alertada
Durante seu depoimento à Comissão Processante, Suéllen afirmou que não havia recebido alertas prévios sobre irregularidades na concessão.
A prefeita também disse que não participou diretamente das decisões técnicas que definiram a modelagem da concessão e sustentou que os procedimentos administrativos são distribuídos entre secretarias, setores técnicos, jurídicos e demais estruturas municipais.
Borgo, por outro lado, tem sustentado questionamentos justamente sobre o nível de conhecimento da prefeita e sobre as informações que chegaram — ou não chegaram — ao Executivo.
Essa diferença entre as versões deve ser um dos pontos centrais da entrevista.
O marido da prefeita preso
A crise ganhou uma dimensão ainda maior em 16 de outubro.
No mesmo dia em que Suéllen prestava depoimento à Comissão Processante, Renato Purini, então secretário municipal de Governo e marido da prefeita, foi preso em novo desdobramento da Operação Cavalo de Troia. Ele posteriormente deixou o cargo.
A atuação de Purini durante o desenvolvimento da concessão também foi questionada na oitiva da prefeita.
Suéllen afirmou que a concessão era conduzida diretamente pela Secretaria de Meio Ambiente e que Purini atuava na interlocução política entre o Executivo e a Câmara.
A investigação criminal, entretanto, segue buscando individualizar as condutas dos investigados.
Não há condenação definitiva dos envolvidos, e as suspeitas ainda são objeto de investigação.
A prefeita e os contatos com representantes da empresa
Outro ponto que ganhou destaque durante o depoimento de Suéllen foram seus contatos com Hamilton Libório Agle, representante da Estre Ambiental e um dos investigados na operação.
A prefeita afirmou que os contatos tiveram caráter institucional e negou ter recebido qualquer presente pessoal.
Borgo questionou Suéllen sobre interceptações mencionadas durante a investigação e sobre referências a um possível “presentinho”.
A prefeita negou ter recebido qualquer vantagem ou presente pessoal relacionado ao caso.
O episódio deverá voltar à pauta na entrevista desta quinta-feira.
A disputa chegou à Justiça
Borgo também protagonizou uma batalha judicial dentro da própria Comissão Processante.
A Presidência da comissão havia determinado que os questionamentos destinados à prefeita fossem apresentados previamente por escrito.
O vereador contestou a decisão e entrou com um mandado de segurança.
A Justiça concedeu parcialmente a liminar e garantiu a Borgo o direito de formular oralmente perguntas e pedidos de esclarecimento durante a oitiva, embora os questionamentos continuassem sendo encaminhados à prefeita por intermédio do presidente da comissão.
A decisão também determinou o registro das perguntas eventualmente indeferidas.
Na prática, o episódio abriu outra frente de disputa:
até onde poderia ir o direito de acusação de Borgo dentro da Comissão Processante?
“Longe de Bauru”
Outro episódio que deverá ser explorado na entrevista envolve o próprio vereador.
Informações divulgadas anteriormente sobre interceptações realizadas no âmbito da investigação apontaram uma manifestação atribuída à então secretária municipal Cilene Bordezan envolvendo o desejo de que Borgo ficasse “longe de Bauru”.
A frase ganha relevância diante do papel assumido pelo vereador na fiscalização da administração e, posteriormente, na denúncia que deu origem à Comissão Processante.
Por que alguém queria Eduardo Borgo longe de Bauru?
Essa é uma das perguntas que o Diário Regional pretende colocar diretamente ao vereador.
A família Rosim e a influência política
A entrevista também deverá abordar a trajetória política da família da prefeita.
A mãe de Suéllen, Lúcia Rosim, também possui trajetória política em Bauru e chegou a disputar espaço eleitoral como candidata a deputada estadual.
A família também possui atuação no segmento religioso, assunto que faz parte da trajetória pública do grupo político.
O objetivo, neste ponto, não é estabelecer qualquer relação automática entre atividade religiosa, atuação política e as investigações, mas entender de Borgo qual é a dimensão da influência política da família Rosim em Bauru e como ele enxerga essa trajetória.
O que ainda não apareceu?
Talvez essa seja a pergunta mais importante de toda a entrevista.
A Operação Cavalo de Troia continua em andamento.
A Comissão Processante também continua sua instrução.
E Borgo apresentou pedidos para que elementos da investigação criminal possam ser compartilhados com o processo político-administrativo, respeitados os limites legais e o sigilo quando necessário.
Por isso, o Diário Regional vai perguntar:
Existe mais coisa para aparecer?
Há outros contratos? Outros nomes? Outros agentes públicos? Outras empresas? Outras conversas?
E, principalmente:
o caso do lixo seria um episódio isolado ou apenas a ponta de algo maior dentro da administração municipal?
É justamente para esclarecer essas e outras questões que Eduardo Borgo foi convidado a participar do Jornal Diário Regional. Na entrevista, o vereador deverá responder aos questionamentos, detalhar os alertas que afirma ter feito ao longo do tempo e falar sobre os bastidores da investigação que colocou a Prefeitura de Bauru no centro das atenções.
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