Prefeita nega irregularidades na concessão do lixo após prisão do marido
A prefeita de Bauru, Suéllen Rosim (PSD), negou ter conhecimento prévio de possíveis irregularidades na concessão do sistema de resíduos sólidos e rejeitou ter recebido presentes de um representante da Estre Ambiental. As declarações foram dadas nesta sexta-feira (16), durante depoimento à Comissão Processante da Câmara Municipal, que investiga possíveis infrações político-administrativas relacionadas ao projeto.
A oitiva ocorreu horas depois de Renato Purini, marido da prefeita e então secretário municipal de Governo, ser preso em mais um desdobramento da Operação Cavalo de Troia. Após a prisão, ele foi exonerado do cargo.
Deflagrada pelo Gaeco em setembro, a operação investiga suspeitas de fraude, direcionamento e corrupção na estruturação de uma concessão de resíduos sólidos prevista para durar 30 anos, com valor estimado em aproximadamente R$ 5,2 bilhões.
Prefeita diz que não recebeu alertas
Durante o depoimento, Suéllen afirmou que não recebeu informações sobre possíveis irregularidades antes do avanço das investigações. Segundo ela, a elaboração do projeto envolveu diferentes setores da administração municipal, com divisão de responsabilidades entre áreas técnicas, jurídicas e administrativas.
A prefeita também negou participação direta nas decisões técnicas que definiram a modelagem da concessão. Questionada pelo vereador Eduardo Borgo (Novo), autor da denúncia, sobre o envio de estudos solicitados pela Câmara, disse que os pedidos eram encaminhados às áreas responsáveis, que preparavam as respostas destinadas ao Legislativo.
Ela não soube precisar se toda a documentação havia sido entregue antes da votação do projeto, em 2025. O possível atendimento incompleto aos pedidos de informações dos vereadores é uma das questões analisadas pela comissão.
Relação com representante da empresa
Outro ponto central do depoimento foram os contatos entre Suéllen e Hamilton Libório Agle, representante da Estre Ambiental e preso na primeira fase da operação.
A prefeita confirmou que esteve com o empresário em algumas ocasiões, inclusive em uma visita à empresa, em São Paulo. Entretanto, afirmou que os encontros tiveram caráter institucional e negou ter recebido presente pessoal.
O questionamento ocorreu após Borgo mencionar conversas interceptadas durante a investigação nas quais há referências a um possível “presentinho” destinado à prefeita. Suéllen declarou que não poderia ser responsabilizada pelas falas de terceiros e negou ter recebido qualquer benefício relacionado ao episódio.
A contratação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que elaborou estudos utilizados na estruturação da concessão, também foi discutida. A prefeita afirmou que a proposta partiu de Cilene Chabuh Bordezan, ex-secretária de Meio Ambiente presa na primeira fase da operação, e negou ter conhecimento prévio de possíveis conflitos de interesse.
Nomeações e atuação do marido
A comissão também questionou a nomeação de servidores posteriormente alcançados pelas investigações, entre eles Cilene, Sara Moura de Jesus e Vitor João de Freitas Costa.
Suéllen afirmou que as escolhas ocorreram com base nas informações disponíveis à época e negou conhecer circunstâncias que impedissem as nomeações. Sobre Sara, disse que a indicação foi feita por Cilene e que só soube posteriormente do vínculo profissional anterior dela com a Estre.
Em relação a Purini, a prefeita afirmou que a Secretaria de Governo atuava na interlocução política entre o Executivo e a Câmara, enquanto a concessão era conduzida pela Secretaria de Meio Ambiente. Ela negou ter conhecimento de contatos entre o marido e Hamilton relacionados ao projeto.
A prefeita declarou ainda que adotou providências administrativas após o surgimento de indícios na investigação, incluindo exonerações e abertura de procedimentos internos.
Projeto tramitou em regime de urgência
Outro tema foi a tramitação do projeto de concessão na Câmara. Questionada pelo relator Junior Lokadora (Podemos), Suéllen afirmou que o regime de urgência estava relacionado à necessidade de avançar na implantação de uma taxa ou tarifa para os resíduos e aos impactos esperados no orçamento municipal de 2026.
O depoimento havia sido antecipado pela maioria da comissão a pedido de Borgo, que apontou a proximidade do parto da prefeita. A defesa contestou a mudança na ordem da instrução, mas a oitiva foi mantida.
Uma liminar judicial também permitiu que o denunciante apresentasse perguntas oralmente, por intermédio do presidente da comissão, Miltinho Sardin (PSD), em vez de utilizar exclusivamente questionamentos escritos.
A Comissão Processante apura três possíveis infrações político-administrativas relacionadas ao envio de informações à Câmara, à governança e à prevenção de conflitos de interesse, além de eventual omissão na defesa dos interesses municipais durante a concessão.
O procedimento segue em fase de instrução, com previsão de novas oitivas e diligências. As suspeitas investigadas ainda dependem de apuração, e as declarações prestadas pela prefeita integram os elementos que serão analisados pela comissão.
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