Pular para o conteúdo

Agora

Birigui Notícias

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Brasil e Mundo

Autorregulação de IA por Trump dá carta branca às big techs

Especialistas avaliam que a autorregulação da IA promovida pelo governo Trump entrega o controle democrático às corporações. Riscos incluem saúde pública, privacidade e democracia, enquanto acordos voluntários podem ser abandonados.

5 min de leitura
Autorregulação IA Trump é carta branca a big tech
Crédito: agenciabrasil.ebc.com.br

A decisão do governo de Donald Trump de apostar na autorregulação da inteligência artificial (IA) gerou críticas de especialistas, que veem na medida uma carta branca para as big techs. O sociólogo Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), afirmou que a abordagem entrega o controle democrático do desenvolvimento da IA às próprias corporações que a desenvolvem, representando um risco gigantesco.

Em declarações à imprensa, Amadeu avaliou que a postura do governo Trump é irresponsável. “O que o Trump fez foi entregar completamente e de modo irresponsável o controle democrático do desenvolvimento da IA para a própria corporação que a desenvolve. Isso é um risco gigantesco”, disse. O professor também minimizou a eficácia de medidas como monitoramento interno, já praticado pelas empresas.

“Isso já é feito. Todo o processo de treinamento de IA requer um controle robusto. O monitoramento interno já é feito. Tudo isso não agrega nada de importante para regulamentar e controlar usos e desenvolvimentos indevidos do aprendizado de máquina e do aprendizado profundo”, completou Amadeu.

Auditoria externa paga pela própria empresa

O professor da UFABC também questionou a previsão de auditoria externa independente das empresas de IA, destacando que essa auditoria será paga pela própria empresa. Para ele, isso compromete a independência do processo. “Até que ponto esse auditor externo pago pela própria empresa vai fazer críticas e sugestões que vão criar descontentamento do conselho de acionistas das empresas?”, questionou Sérgio.

Essa preocupação reflete um ceticismo mais amplo sobre a capacidade de mecanismos voluntários garantirem a segurança da IA. A transição para uma análise dos possíveis benefícios e limitações desses acordos é natural.

Acordos voluntários podem trazer benefícios

O especialista em governança de IA Ettore Arpini, fundador da organização Plures, que apoia a formação de profissionais para atuação em IA, destacou à Agência Brasil que o acordo voluntário das IAs pode criar benefícios reais. Porém, alerta que o compromisso pode ser abandonado quando as proteções se tornarem comercialmente prejudiciais.

Arpini cita o exemplo da Moratória da Soja na Amazônia, que foi um acordo voluntário que envolveu empresas do setor para não plantar soja na Amazônia e evitar o desmatamento do bioma. “Isso deu certo por 20 anos, de forma voluntária, até que mudou o ambiente político e econômico e as empresas que faziam parte saíram do acordo e a moratória morreu. O que acontece se uma empresa reprovar numa auditoria ou abandonar o pacto?”, questionou.

Esse histórico levanta dúvidas sobre a sustentabilidade de compromissos não vinculantes no setor de IA. A seguir, são apresentados os riscos apontados pelos especialistas.

Riscos à saúde pública e democracia

O sociólogo Sérgio Amadeu destaca que a IA traz riscos ambientais, devido ao alto consumo de energia e água, de violação de privacidade, devido a capacidade de vigilância em massa de populações, assim como riscos à democracia e à saúde pública. Ele explica que várias pesquisas realizadas na indústria farmacêutica, em parceria com big techs por meio de modelos de IA, podem envolver riscos para a saúde da população e, por isso, precisa de regulação do Estado.

“Sabemos que quando o uso de IA fica sob controle apenas de investidores, isso traz um risco gigantesco para experimentos e ações que coloquem em risco a saúde pública”, comentou. Entre os riscos, o especialista cita a possibilidade do uso de IA levar as pessoas a tomar medicamentos por conta própria ou mesmo fazer diagnósticos com uso da máquina.

“Quando nós estamos tratando de fenômenos ligados à chamada saúde pública e que incluam a parceria de grandes big techs com indústrias químicas e de fármacos, é um risco muito grande e, portanto, precisa de uma regulamentação estatal democrática”, concluiu.

Essas preocupações se somam a outros perigos associados à IA, como ataques cibernéticos e manipulação de informações.

Outros riscos apontados por especialistas

Um dos riscos apontados é que os sistemas banalizem ataques cibernético por meio da invasão de sistemas de outras empresas e instituições. Outros riscos associados à IA são os impactos sobre o mercado de trabalho ou uso “maliciosos” da tecnologia por criminosos para aplicar golpes cibernéticos.

A IA ainda pode ser usada para influenciar a opinião pública por meio da manipulação da informação que circula nas redes sociais, segundo descreve o relatório Internacional IA Safety Report 2026, elaborado por 100 especialistas de mais de 30 países. “Diversos estudos laboratoriais demonstraram que a interação com sistemas de IA pode levar a mudanças mensuráveis nas crenças das pessoas”, aponta o relatório.

Outro risco apontado é em relação ao desenvolvimento de armas químicas e biológicas. “Sistemas de IA de uso geral podem fornecer informações sobre o desenvolvimento de armas biológicas e químicas, incluindo detalhes sobre patógenos e instruções de laboratório de nível especializado”, diz o relatório internacional.

Diante desse cenário, a pressão por regulamentação mais rígida cresce, inclusive nos Estados Unidos.

Pressão social por limites à IA

O governo Trump tem rejeitado impor limites ao desenvolvimento da IA, mesmo diante de pedidos da própria indústria e pressão social interna. Pesquisa de opinião realizada pela Ipsos e Reuters revelou que 73% da população dos EUA acreditam que as empresas de IA não tomam medidas suficientes para impedir os danos da tecnologia para a sociedade e 39% acreditam que a IA está tendo um impacto negativo na sociedade.

Esses números indicam um descompasso entre a política governamental e a percepção pública sobre os riscos da IA. A ausência de regras claras pode aprofundar a desconfiança e ampliar os desafios para a governança da tecnologia.

Fonte

Compartilhar

Deixe seu comentário

Seu e-mail não aparece publicamente. A redação modera antes de publicar.

Leia também