Pesquisa torcidas eleição: o que os números revelam
Pesquisas de torcida do Ipec e Ipsos-Ipec mostram concentração em Flamengo e Corinthians, enquanto clubes menores somam fatia relevante. Analogia com eleições revela que candidatos com menos de 10% nas pesquisas finais perdem espaço na urna, diferença de até 8,77 pontos.
Torcidas e urnas: paralelos surpreendentes
Como editor de Esportes do GLOBO, participei da publicação de duas pesquisas nacionais sobre torcidas, feitas pelo Ipec em 2022 e pelo Ipsos-Ipec em 2025. É um assunto que provoca uma quantidade de discussão inversamente proporcional à capacidade que uma pesquisa tem de encerrá-la. A comparação entre a preferência clubística e o comportamento eleitoral, embora pareça distante, oferece lições sobre como lemos números e expectativas.
Os levantamentos mapeiam a paixão do torcedor brasileiro, mas também escancaram um fenômeno estatístico familiar a quem acompanha disputas majoritárias: a concentração em poucos nomes e a fragmentação de muitos outros. Essa dinâmica, quando transposta para o cenário político, ajuda a entender por que certos candidatos somem na reta final.
A fonte não detalhou a metodologia completa das pesquisas de torcida, mas os percentuais citados permitem uma radiografia clara do cenário esportivo. A partir dessa base, é possível traçar um paralelo com as eleições presidenciais recentes, nas quais o pelotão intermediário também encolheu.
Flamengo e Corinthians dominam a preferência
Flamengo e Corinthians são fáceis de enxergar. Em 2022, tinham 21,8% e 15,5% das menções. Depois vinham São Paulo, com 8,2%, Palmeiras, com 7,4%, e Vasco, 4,2%. Os dois primeiros, juntos, concentram mais de um terço de todas as respostas, um retrato da força das maiores torcidas do país.
Essa liderança isolada não surpreende: são clubes de massa, com alcance nacional e forte presença midiática. A distância para o terceiro colocado, o São Paulo, é de mais de 13 pontos percentuais, um abismo que se repete em outras esferas de preferência popular. A concentração no topo é um padrão que também aparece nas pesquisas eleitorais, onde dois ou três candidatos dominam as intenções de voto.
No futebol, essa hegemonia se traduz em maior exposição, receitas e capacidade de mobilização. No universo político, os líderes nas pesquisas atraem mais atenção, financiamento e cobertura, o que tende a reforçar sua posição. A analogia, ainda que imperfeita, ajuda a visualizar como a vantagem inicial pode se consolidar.
A confusão começa no pelotão intermediário
A partir daí começa a confusão: Grêmio, 3,2%, Cruzeiro, 3,1%, Inter e Santos, 2,2%, Atlético-MG, 2,1%, Bahia, 1,7%, Botafogo e Fortaleza, 1,3%, Sport, 1,2%, Fluminense, 1,1%. E depois ainda havia uma fila de clubes abaixo de 1%. São dezenas de agremiações disputando uma fatia pequena, mas coletivamente relevante, do eleitorado esportivo.
Essa fragmentação lembra o cenário de candidaturas nanicas ou de médio porte nas eleições: muitos postulantes, cada um com poucos pontos, mas que somados representam um contingente expressivo. A diferença é que, no futebol, a torcida não migra de um clube para outro conforme a conveniência; no voto, porém, a transferência é mais fluida e estratégica.
O torcedor de um clube pequeno dificilmente abandona sua paixão, mas o eleitor de um candidato com poucas chances pode migrar para evitar “desperdiçar” o voto. Esse comportamento, conhecido como voto útil, ajuda a explicar por que o pelotão intermediário encolhe na urna.
O encolhimento do pelotão abaixo de 10%
Os dados não permitem responder. Permitem constatar que, nas duas eleições mais recentes, aconteceu algo bastante parecido: o pelotão que chegava à reta final abaixo dos 10% ocupou na urna um espaço consideravelmente menor do que ocupava nas pesquisas finais. Em outras palavras, candidatos que apareciam com 8%, 9% ou até 5% nas vésperas do pleito terminaram com votação bem inferior.
Na urna, esse conjunto terminou com 12,23% dos votos válidos. A distância foi de 7,77 pontos percentuais para o Datafolha e 8,77 para o Ibope. Para voltar à arquibancada, é uma diferença próxima do tamanho que São Paulo e Palmeiras tinham inteiros na pesquisa de torcidas de 2022. Ou seja, a soma de todos os candidatos “pequenos” perdeu, na prática, o equivalente a uma torcida gigante.
Esse fenômeno não é exclusividade brasileira, mas os números locais impressionam pela magnitude. A fonte não detalhou se o mesmo ocorreu em eleições anteriores, mas o padrão se repetiu nas duas disputas mais recentes, o que sugere uma tendência consistente.
Uma diferença do tamanho de São Paulo e Palmeiras
Não estamos falando, portanto, de uma nota de rodapé. Estamos falando de 15%, mais ou mesmo a soma de palmeirenses e são-paulinos juntos, ou um pouco mais, espalhada por vários candidatos. Esse percentual, que antes se distribuía entre postulantes com menos de 10%, migrou para os líderes na hora do voto.
Para dimensionar: se somarmos as torcidas de São Paulo (8,2%) e Palmeiras (7,4%), chegamos a 15,6%, número muito próximo do encolhimento observado no pelotão eleitoral. É como se, no futebol, todos os torcedores de clubes médios decidissem, de repente, apoiar apenas os dois maiores times.
Essa comparação não implica que haja relação causal entre torcer para um clube e votar em determinado candidato. Trata-se apenas de uma metáfora numérica para ilustrar a magnitude da transferência de votos. A fonte não forneceu dados sobre o perfil dos eleitores que migraram.
Lições para ler pesquisas com mais cautela
O caso das torcidas ensina que números absolutos podem esconder nuances importantes. Flamengo e Corinthians, com 21,8% e 15,5%, são imbatíveis no topo, mas a soma dos “pequenos” também impressiona. Da mesma forma, nas eleições, a soma dos candidatos com menos de 10% pode parecer irrelevante individualmente, mas coletivamente representa uma força considerável.
Para o leitor de pesquisas, a lição é clara: desconfie de números estáveis na reta final. A migração de votos, impulsionada pelo voto útil ou por mudanças de última hora, pode alterar radicalmente o quadro. No futebol, a torcida é fiel; na política, nem tanto.
A fonte não detalhou se houve pesquisas qualitativas para entender as motivações dessa migração. Ainda assim, os dados quantitativos são suficientes para alertar analistas e eleitores sobre a volatilidade do pelotão intermediário.
Deixe seu comentário