Esquerda que ri de CEO de MEI não entende sonhos
A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, da University College Dublin, afirma que a esquerda que ridiculariza o 'CEO de MEI' não compreende os sonhos do novo trabalhador brasileiro. Em entrevista à BBC News Brasil, ela analisa a expansão das aspirações e a frustração diante das promessas digitais.
A antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado, que dirige um laboratório na University College Dublin, na Irlanda, observa com atenção um fenômeno que se repete em países que tiraram milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas: o desejo de querer mais. Em entrevista à BBC News Brasil, ela afirma que a capacidade de sonhar da população atingiu níveis inéditos, mas poucos conseguem realizar esses sonhos no Brasil.
A frustração resultante, segundo a pesquisadora, alimenta a raiva e direciona a culpa para o Estado, para a ‘vizinha preguiçosa’ que recebe Bolsa Família e para si mesmo.
Pinheiro-Machado estuda milhões de ‘aspirantes a empreendedores digitais’ nas redes sociais e chega a uma conclusão desoladora: pouquíssimos de fato conseguem realizar esses sonhos no Brasil. Esse cenário, diz ela, é essencialmente brasileiro e tem repercussões claras na política. No país, consolidou-se uma legião de influenciadores que ‘surfam nos sonhos dos outros’, ao mesmo tempo em que propagam ideias caras à direita radical.
Sonhos ampliados pela mobilidade social
No Brasil, na Índia ou nas Filipinas, enquanto experimentavam uma mobilidade social inédita, milhões de pessoas adquiriram bens e passaram a ver de perto ou pela tela do celular a conquista dos outros. A capacidade de sonhar da população, diz Pinheiro-Machado, atingiu assim níveis que nunca havia atingido antes, ‘porque a gente aspira tudo aquilo que a gente pode ver’.
‘A gente está falando de milhões de pessoas que, ao longo de gerações, tiveram essa capacidade de aspirar ampliada e que hoje encontram no digital uma promessa fácil e rápida que parece solucionar todos os problemas da vida: tempo, dinheiro e respeito’, explica. Essa ampliação das aspirações, contudo, não veio acompanhada de recursos para realizá-las, o que gera frustração.
A frustração e a busca por culpados
Quando os sonhos não se concretizam, surge a raiva e a frustração. E o direcionamento da culpa recai sobre o Estado que só atrapalha, sobre a ‘vizinha preguiçosa’ que ganha Bolsa Família enquanto o indivíduo tenta crescer, e sobre si mesmo, que precisa mudar o mindset e se esforçar mais. ‘E aí dobram a aposta no investimento em pagar mais um coach, em tentar de novo, em continuar mais uma noite sem dormir’, relata a antropóloga.
Esse ciclo de tentativas e fracassos é alimentado por uma rede de influenciadores que se consolidou no Brasil, especialmente após a pandemia. Eles oferecem uma promessa de renda extra digital e um sonho de ter uma Ferrari, uma casa, a vida sempre sonhada e acesso para os filhos a coisas que os pais não tiveram.
Influenciadores surfam nos sonhos alheios
Segundo Pinheiro-Machado, no Brasil se consolidou uma legião de influenciadores que ‘surfam nos sonhos dos outros’, ao mesmo tempo em que propagam ideias caras à direita radical. ‘E eles estão surfando sozinhos nessa explosão de aspirações da sociedade brasileira, colocando uma ideia de que para você crescer é só você sozinho’, afirma.
Essa narrativa individualista ignora as condições estruturais e responsabiliza exclusivamente o indivíduo pelo próprio sucesso ou fracasso. A pesquisadora destaca que a população brasileira aumentou sua capacidade de aspirar, em grande medida, pelos governos do PT, mas questiona: ‘Não pode simplesmente abrir a janela da aspiração e fechar a janela. É preciso oferecer recursos para continuar as aspirações e não frustrá-las’.
O deboche da esquerda e da classe média
A incompreensão desse fenômeno não vem só do governo, mas também de uma ‘esquerda mais intelectualizada’ e de uma classe média que olham com deboche para grupos que se classificam, por exemplo, como CEO de uma lojinha online no Instagram. ‘Minha proposta não é ridicularizar esse processo, é o oposto. É entender que essas pessoas estão buscando um título que é o da moda, que traz dignidade, que se sentem chiques’, defende Pinheiro-Machado.
Para a antropóloga, o uso do termo CEO por pequenos empreendedores digitais é uma forma de agência: ‘Ela consegue escolher como ela vai ser chamada. E não é como a sociedade definiu que ela vai ser chamada. Isso é muito poderoso. Por isso que a gente precisa entender isso com empatia’. A crítica ao deboche é um chamado para que a esquerda compreenda as aspirações por respeito, conforto e dignidade, que vão além do emprego pleno.
Aspiração por dignidade e respeito
‘Aspiração não é mais só ter emprego pleno. Aspiração é por respeito, por conforto e dignidade’, afirma a pesquisadora. Essa mudança qualitativa nas aspirações reflete uma transformação profunda na sociedade brasileira, que passou por um processo gradual de formação de classes aspiracionais desde os anos 1980, intensificado nos anos 2000.
Depois de 2015, com a explosão das redes sociais, grupos passaram a olhar para coisas que muitas vezes nunca pensaram que poderiam ter, adquirindo não só o que veem na sua rede social, mas muito além. A pandemia acelerou esse processo, consolidando uma rede de influenciadores com valores específicos sobre trabalho e política, que prometem uma renda extra digital e a realização de sonhos de consumo e status.
Um fenômeno com raízes históricas
Rosana Pinheiro-Machado explica que a formação de classes aspiracionais no Brasil é um movimento gradual a partir dos anos 1980, dos anos 1990 e, depois, nos anos 2000. A mobilidade social experimentada nesse período ampliou o horizonte de possibilidades para milhões de brasileiros, que passaram a desejar bens e estilos de vida antes inacessíveis.
Com a pandemia, a conexão online se intensificou e uma rede específica de influenciadores se consolidou no Brasil, oferecendo oportunidades de trabalho em casa e renda extra. Essa rede promete um sonho de prosperidade e ascensão, mas, segundo a pesquisadora, poucos conseguem realizá-lo, o que gera frustração e alimenta discursos de ódio e individualismo.
Para Pinheiro-Machado, compreender esse fenômeno com empatia é essencial para construir políticas públicas que ofereçam recursos para as aspirações, em vez de ridicularizá-las. A esquerda, em particular, precisa reconhecer que o desejo por títulos como ‘CEO de MEI’ é uma busca legítima por dignidade e respeito em um contexto de profundas desigualdades.
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