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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

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Querer mudar nem sempre é suficiente

2 min de leitura

Jean Oliveira –

Uma pessoa jura para si mesma que não vai mais aceitar abusos na rotina. Outra promete, em lágrimas, na manhã de domingo, que não vai mais beber, usar outras drogas ou passar a noite apostando o salário nas telas de cassinos online. Querem parar. Estão exaustas da ressaca moral, da perda financeira e do ressentimento.

No entanto, quando surge a oportunidade ou o gatilho, o comportamento se repete. Quem assiste de fora perde a paciência depressa: “Afinal, falta vergonha na cara? Quer mudar ou não?”.

Como psicólogo, desconfio dessa pressa em julgar. Querer mudar e conseguir mudar habitam lugares muito distantes. Entre uma decisão consciente e a ação real, existe um abismo povoado por dores antigas, ansiedades difíceis de suportar e mecanismos acostumados a buscar alívio rápido.

Ninguém se anula o tempo todo ou se entrega a um vício simplesmente porque é fraco. Muitas vezes, faz isso porque, em algum momento de sua história, esse foi o recurso encontrado para lidar com o medo da rejeição, com o vazio ou com a solidão.

O jogador que não larga o celular não busca apenas dinheiro: pode buscar também a excitação da aposta e uma fuga da angústia de estar vivo em dias difíceis. Da mesma forma, quem diz “sim” a tudo não quer apenas ser agradável: pode buscar a garantia ilusória de que não será abandonado. O sintoma muda — seja a submissão, a garrafa ou a aposta —, mas por trás dele frequentemente existe uma tentativa de não entrar em contato com aquilo que dói.

É por isso que conselhos de autoajuda rápida e cobranças agressivas da família costumam ser insuficientes. Ninguém supera um vício ou uma dependência emocional na base da vergonha. A culpa, sozinha, não transforma ninguém; muitas vezes, apenas empurra a pessoa de volta para aquilo que lhe oferece alívio imediato.

Mudar não nasce de uma força de vontade mágica. Nasce também da coragem de olhar para o que estamos tentando calar por meio dessas repetições. A ajuda profissional não serve para ditar regras fáceis, mas para construir apoio enquanto a pessoa compreende seus padrões e aprende outras maneiras de enfrentar aquilo que antes parecia insuportável.

O alívio temporário pode cobrar juros altos demais. A pergunta diante de cada recaída silenciosa talvez não seja apenas se você terá forças para recomeçar amanhã, mas outra, bem mais incômoda: até quando continuará pagando com a própria vida o preço de fugir daquilo que dói?

Procurar ajuda profissional ou um serviço público de saúde mental pode ser o começo de uma mudança mais profunda. Não uma transformação instantânea, mas um processo possível, construído no tempo de cada pessoa, com cuidado, responsabilidade e segurança.

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

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