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Birigui Notícias

domingo, 1 de novembro de 2026

Araçatuba

Boicote político revolta empresários e gera denúncias na região

Sete empresários ouvidos em Araçatuba e Birigui criticam listas que associam comerciantes a posições políticas; caso já chegou à Polícia Civil.

4 min de leitura

Uma disputa que deveria ficar restrita ao campo das opiniões políticas está provocando preocupação entre empresários do comércio regional. Listas divulgadas nas redes sociais, associando comerciantes e profissionais liberais a determinadas posições políticas e incentivando consumidores a boicotar seus estabelecimentos, geraram indignação em Araçatuba e Birigui.

A repercussão chegou às autoridades policiais em Araçatuba, onde pelo menos sete pessoas procuraram a Polícia Civil após terem seus nomes incluídos em uma relação que apontava supostos apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os denunciantes relataram preocupação com a exposição pública e possíveis prejuízos à reputação e aos negócios.

Para entender os reflexos dessa situação no comércio, o Birigui Notícias conversou com sete empresários que tiveram seus nomes relacionados às listas: três de Araçatuba e quatro de Birigui. Todos demonstraram insatisfação com a iniciativa e criticaram o que consideram uma tentativa de transformar divergências políticas em motivo para constranger e prejudicar trabalhadores e empreendedores.

Empresários relatam indignação e criticam intolerância

Entre os entrevistados, um dos empresários de Birigui contou que alguns clientes chegaram a comentar sobre a lista diretamente no balcão do estabelecimento. Segundo ele, as manifestações foram marcadas por indignação e repúdio à exposição dos comerciantes.

O empresário também criticou o ambiente de intolerância política e afirmou que questionar decisões ou discordar de um político não deveria ser motivo para receber rótulos ou ser tratado como adversário.

“Não sou obrigado a concordar com tudo de ninguém. Tenho minhas próprias opiniões, meu pensamento e minha liberdade de questionar”, afirmou.

Ele também destacou que respeitar um representante político não significa concordar com todas as suas atitudes.

“Não sou torcedor de político. Sou cidadão, tenho opinião própria e não abro mão da minha liberdade de pensar”, acrescentou.

Outro trecho do depoimento chama atenção para o comportamento nas redes sociais e a necessidade de reflexão antes de compartilhar conteúdos.

“O Brasil precisa de pessoas que pensem, questionem e construam, não de pessoas que simplesmente reproduzam aquilo que recebem nas redes sociais”, declarou.

Os demais empresários ouvidos também desaprovaram a iniciativa. Alguns relataram possíveis perdas comerciais e criticaram atitudes que classificaram como arrogantes e preconceituosas contra pessoas que pertencem a outros grupos políticos.

Liberdade de escolha não significa autorização para atacar

A discussão também envolve aspectos jurídicos. O advogado Dr. Jerônimo Junior explicou ao Birigui Notícias que o consumidor tem liberdade para escolher onde deseja comprar, inclusive por discordar politicamente do proprietário de uma empresa.

Entretanto, segundo o advogado, existe uma diferença entre deixar de consumir em determinado estabelecimento e promover ações que possam atingir a honra, a imagem ou a atividade profissional de alguém.

A divulgação de informações falsas, a convocação para retaliações, a exposição de dados pessoais e eventuais ameaças podem ultrapassar os limites da liberdade de expressão e gerar consequências jurídicas.

O advogado destaca que atribuir uma posição política a alguém sem que essa pessoa tenha declarado publicamente sua preferência também pode levantar questionamentos legais, especialmente quando a informação divulgada é falsa e prejudicial à reputação.

O que pode acontecer na Justiça?

Dependendo do conteúdo publicado e das circunstâncias, os responsáveis pela criação ou compartilhamento de listas podem enfrentar questionamentos nas esferas criminal e civil.

Entre as possibilidades estão acusações relacionadas a crimes contra a honra, como difamação, calúnia ou injúria, além de eventuais pedidos de indenização por danos morais e materiais.

Outro ponto destacado pelo advogado é a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que classifica informações sobre posicionamento político como dados pessoais sensíveis. A utilização dessas informações em listas também pode exigir análise sobre a existência de uma base legal para seu tratamento.

O enquadramento, entretanto, depende da análise de cada situação, do conteúdo divulgado e das provas disponíveis.

Comércio não deveria ser campo de batalha política

A repercussão do episódio levanta uma discussão importante para a economia regional. Atrás de cada estabelecimento existem funcionários, fornecedores, famílias e trabalhadores que dependem diretamente da movimentação comercial.

Para os empresários ouvidos, a divergência política não deveria comprometer relações construídas ao longo de anos com clientes e a comunidade.

O direito de apoiar um candidato, criticar um governo ou simplesmente não concordar com determinada liderança faz parte da democracia. Da mesma forma, nenhum cidadão deveria ser obrigado a seguir uma orientação política para exercer sua atividade profissional.

Em uma região onde pequenos e médios negócios desempenham papel fundamental na geração de empregos e renda, a discussão deixa um questionamento: até que ponto a polarização política pode interferir na vida de quem trabalha, empreende e movimenta a economia das nossas cidades?

A reportagem ouviu os empresários sem identificá-los, preservando suas identidades diante da repercussão do caso.

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