Você tem fome de quê?
Por Bianca Spirandeli
Hoje em dia, é comum ouvirmos falar sobre atingir a meta de proteínas ou consumir a quantidade ideal de carboidratos, como se a alimentação tivesse se tornado apenas mais uma planilha a ser preenchida. Mas será que comer se resume a isso? Por que, às vezes, é tão difícil seguir uma dieta?
A alimentação humana é atravessada por afetos o tempo todo.
Sabe quando você abre a geladeira em busca de algo para comer, mas nada do que está ali parece despertar sua vontade? Isso é chamado de desejo, uma necessidade que queremos satisfazer, mas não é a fome. Porque quando nos alimentamos também nos nutrimos de afeto, seja de amor, saudade, culpa, tristeza etc.
Desde os primeiros momentos de vida, alimento e afeto caminham juntos, o leite que nos nutre também está presente em uma relação de cuidado com o outro materno. Crescemos, conhecemos novos alimentos, construímos novas relações e atribuímos à comida sentidos que vão muito além de suas propriedades nutricionais.
É nesse contexto que podemos compreender a lei da comensalidade, conceito que se refere ao ato de “comer junto” e aos costumes que envolvem as refeições. Pense na mesa de almoço da sua família: quem costuma preparar a comida? Quem se senta em cada lugar? Em que ordem os alimentos são servidos? Quais receitas não podem faltar em determinadas ocasiões? Muitas dessas regras nunca foram ditas explicitamente, mas aprendemos a reconhecê-las e incorporá-las ao longo da vida. Elas carregam marcas da nossa cultura, da nossa história e dos vínculos que construímos com as pessoas ao nosso redor.
Cada pessoa desenvolve uma relação singular com a comida, por isso, compreender os hábitos alimentares exige olhar para além do prato e considerar a história, os sentimentos e as experiências de cada um. Isso não significa desconsiderar a importância dos macro e micronutrientes, fundamentais para a saúde, mas reconhecer que a alimentação não se resume a números, cálculos e metas.
Não é apenas proteína, é a carne de panela da avó. Não é apenas carboidrato, é a macarronada do pai. Não é apenas caloria, é a sua história, feita de encontros, afetos, costumes e memórias.

Bianca C. Spirandeli é Psicóloga clínica e pós-graduanda em Transtornos Alimentares, Psicanálise e Cultura. Interessada em artes, literatura e diversidade cultural. Valoriza a reflexão crítica e o diálogo como formas de ampliação do conhecimento e relações.
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